sábado, 3 de julho de 2010

ENTRE O SOL E A LUA

“A vida só é possível reiventada”, anuncia Cecília Meireles. Cada dia reclama perspectivas novas, um projeto diferente, alentos de ressurreição. Nasço a toda hora para morrer adiante e nascer de novo. Um périplo flutuante, instável, alternado. Se o tempo é a medida do movimento, importa que os jorros interiores o modulem em forma de mandala — numa ascendência espiralada. Os amanheceres pedem horas alvissareiras. Não basta acordar e abrir a janela, olhar a natureza e vigiá-la com atenção, mas inseri-la como parte da própria vivência. Colher uma flor supõe um esforço de pura sensibilidade. E sob o sol ou a chuva reconstruo as horas vindouras. Não é preciso muito para reinventar a vida. Depende apenas da nossa capacidade criativa.

Falo tudo isso porque um amigo me indagava em noite festiva: “Você hoje está triste; por quê?” Recorro de novo a Cecília Meireles: “Tenho fases, como a lua./ Fases de andar escondida,/ fases de vir para a rua.../” O mundo por vezes se mostra chocantemente superficial, postiço. Então me recolho em refúgios protegidos. Evito o excesso de exposição, fecho-me no claustro, opto pela vida monástica — algo conventual que me defende das possíveis intempéries. Em outros instantes, deixo-me envolver por uma melancolia advinda da fragilidade, a minha. E não tenho forças para recriar o dia. As palavras do amigo assaltaram-me como um alerta diante de aparências transitórias, quando a nostalgia se estampa nos olhos desprovidos de muros de defesa.

Reinventar a vida é reiniciá-la dia a dia. São os recomeços que ofertam energia à caminhada, um pouco aqui, um pouco ali, sempre um achado valoroso dentro de nós mesmos. Vasculhar o íntimo é a única maneira de reavivar utopias. A emoção depende de uma ordem interior. E essa ordem exige que os elos sensitivos estejam em harmonia. Que nada escape à deliciosa rotina, que dia e noite se completem na irreversível sucessão. A noite não representa a despedida do dia; simboliza o seu clímax, a reverência aos passados, as possibilitações futuras. Pelo menos para mim, pois é no silêncio da noite que sacolejo as vontades.

Mexo e remexo nos esconderijos. As coisas são indefiníveis na essência. O exagero de definições empobrece, pragmatiza o cotidiano, limita, reduz o que não pode e nem deve ser refreado. Sou um novelo de emaranhados, de linhas que não se sobrepõem, de cores e matizes diferentes, uns fios mais grossos, outros mais finos, todos independentes e, no entanto, interconectados nas dessemelhanças. Há altos e baixos que impulsionam o equilíbrio do núcleo existencial, triste ou alegre, ao embalo da diversidade do eu.

E Cecília Meireles sempre me acode, a voz da poetisa explode: “Já fui loura, já fui morena,/ Já fui Margarida e Beatriz./ Já fui Maria e Madalena./ Só não pude ser como quis.” Será que a máscara se colou ao rosto ao modo de Fernando Pessoa? Em que beco perdi a minha face? É a mesma Cecília Meireles que desenha o retrato: “Eu não tinha este rosto de hoje,/ assim calmo, assim triste, assim magro,/ nem estes olhos tão vazios,/ nem o lábio amargo... Eu não dei por esta mudança,/ tão simples, tão certa, tão fácil: — Em que espelho ficou perdida/ a minha face?”

Estou triste e alegre — nos interstícios do sol e da lua. As mudanças fazem parte de uma ciranda prenhe de circunvoluções. É necessário acumular sensações, sem receio de mergulhar no ermo reflexivo; do frenético redemoinho, extraio o que de melhor preservo. Cultuo uma dinâmica incansável, fujo de um polo para o outro. Atraem-me os contrários. E me espio intensa em todos os momentos, a transparecer o riso e a lágrima.

E naquela noite estava realmente triste.


segunda-feira, 21 de junho de 2010

ALBERT CAMUS



Albert Camus escreveu, no período de 1936 a 1938, um romance intitulado A Morte Feliz, porém publicado em 1971. Em 1942 apareceu um romance intitulado O Estrangeiro. Mersault é o nome do herói de A Morte Feliz. Em O Estrangeiro, o personagem principal tem um nome parecido, Meursault. A semelhança de Mersault e Meursault não está apenas no nome, mas também nos personagens, no entanto, há igualmente grandes diferenças entre eles.

A obra de Albert Camus já foi muito lida e estudada, porém ela nos oferece ainda seus segredos.

(LVN)

HISTÓRIAS VERDADEIRAS



São sete minicontos, nos quais o Escritor Lucilo Varejão Neto (que tão bem conheço como exímio pesquisador e competente ensaísta) destaca traços marcantes das personalidades dos principais envolvidos, que se ressaltam nos relatos, ora trágicos, risíveis ou mesmo caricatos. E qual existência não é assim, “nesta complexa, contraditória e inexplicável viagem rumo à morte que é a vida de toda pessoa” (Ernesto Sabato)?

Cloves Marques
Escritor

sexta-feira, 18 de junho de 2010

Morre, aos 87 anos, o escritor português José Saramago

Autor de 'Ensaio sobre a cegueira' era vencedor do Prêmio Nobel.


Nota em seu site fala 'múltipla falha orgânica após prolongada doença'.


O escritor José Saramago, morto nesta sexta (18), aos 87 anos, em foto de novembro de 2009 (Foto: AFP)

O escritor português José Saramago morreu aos 87 anos em sua casa em Lanzarote, nas Ilhas Canárias, nesta sexta-feira (18). A informação foi divulgada pela família do escritor de "Ensaio sobre a cegueira" e confirmada em seu site oficial.

"Hoje, sexta-feira, 18 de junho, José Saramago faleceu às 12h30 horas [horário local] na sua residência de Lanzarote, aos 87 anos de idade, em consequência de uma múltipla falha orgânica, após uma prolongada doença. O escritor morreu estando acompanhado pela sua família, despedindo-se de uma forma serena e tranquila", diz uma nota assinada pela Fundação José Saramago e publicada na página do escritor na internet.

O autor de "O evangelho segundo Jesus Cristo" e "Ensaio sobre a cegueira" vivia em Lanzarote desde 1993 com sua esposa, a jornalista Pilar del Río. Nos últimos anos foi hospitalizado em várias oportunidades, principalmente devido a problemas respiratórios.

Expoente da literatura mundial

O escritor português era um dos maiores nomes da literatura contemporânea e vencedor de um prêmio Nobel de Literatura no ano de 1998 e de um prêmio Camões - a mais importante condecoração da língua portuguesa.

O autor era tido como o criador de um dos universos literários mais pessoais e sólidos do século XX e uniu a atividade de escritor com a de homem crítico da sociedade, denunciando injustiças e se pronunciando sobre conflitos políticos de sua época.

Entre seus livros mais conhecidos estão "O evangelho segundo Jesus Cristo", "A balsa de pedra" e "A viagem do elefante". O mais recente romance publicado pelo escritor foi "Caim", de 2009.

"Ensaio sobre a cegueira" foi levado às telas em um produção hollywoodiana filmada pelo cineasta brasileiro Fernando Meirelles (de "Cidade de Deus") em 2008.

No mesmo ano, uma exposição sobre o trabalho de Saramago foi exibida no Brasil. "José Saramago: a consistência dos sonhos" trazia cerca de 500 documentos originais e outros tantos digitalizados, reunidos em um formato que, misturando o tradicional e a tecnologia moderna, levavam o visitante a uma agradável e rara viagem pela vida e pela obra do escritor português.



Veja, abaixo, uma lista de romances escritos por Saramago

"Terra do pecado"

"Manual de pintura e caligrafia"

"Levantado do chão

"Memorial do convento"

"O ano da morte de Ricardo Reis"

"A jangada de pedra"

"História do cerco de Lisboa"

"O Evangelho segundo Jesus Cristo"

"Ensaio sobre a cegueira"

"Todos os nomes"

"A caverna"

"O homem duplicado"

"Ensaio sobre a lucidez"

"As intermitências da morte"

"A viagem do elefante"

"Caim"



Cássio Cavalcante

Fonte: www.globo.com

quinta-feira, 17 de junho de 2010

50 POEMAS ESCOLHIDOS PELO AUTOR DE LOURDES SARMENTO


O livro em questão ganhou o Prêmio Carlos Ribeiro, da UBE-RJ/ 2009. É impressionante o poder de que a poetisa tem em bailar com as palavras, criando uma harmonia com o que quer nos transmitir. Vejamos quando ela nos fala do objeto tão querido, o livro:


“os livros dominam
os quartos, as gavetas
não são hóspedes
são vozes silenciosas
identidade registrada
do canto da vida
corpo e alma
da palavra”

Como uma maestrina perfeccionista, ela comanda o símbolo maior, a palavra, as conduzindo na formação da poesia. Lourdes é membro efetivo da Academia Recifense de Letras e da Academia de Letras e Artes do Nordeste. Pertence ao quadro de associados da UBE-PE entre outras entidades literárias. Mas acima de tudo ela é amiga daquele que quer fazer o bem em relação à literatura pernambucana; seja o consagrado ou o novo.
 
Cássio Cavalcante

domingo, 13 de junho de 2010

A DIFÍCIL ARTE DE ESCREVER

Tenho medo da página em branco. Assustam-me as folhas desérticas à espera de palavras ainda não concebidas. O receio aumenta quando a consciência do dizer se instala, censura que limita a criatividade ou que faz latejar em veias pulsantes as ambiguidades de cada um. Escrever é um gesto de ousadia, revela um certo desatino, uma quase loucura. Afinal, que dirá o leitor diante de palavras com aparente nexo ou propositadamente desarticuladas? Faulkner (1897-1962) não se preocupava com regras de pontuação, menos ainda com explicitações temporais. O tempo era o presente que se metamorfoseava ao seu bel prazer. Joyce (1882-1941) explorava a musicalidade em uma escritura de altos e baixos, trechos autônomos e distantes de previsíveis linearidades. Machado de Assis (1839-1908) se enredava numa fina ironia; crítico acirrado, perscrutava os variados matizes de uma sociedade convencional. Guimarães Rosa (1908-1967) adotava um léxico próprio, com termos atávicos, criados por ele ou garimpados em pesquisa profunda, tais, que ensejou dicionários em torno da sua obra, notadamente “Grande Sertão: veredas”. Clarice Lispector (1920-1977) alertava: “Mas já que se há de escrever, que ao menos não se esmaguem com palavras as entrelinhas”. E Manuel Bandeira (1886-1968) decretou: “Estou farto do lirismo comedido/do lirismo bem comportado/ abaixo os puristas/ Quero antes o lirismo dos loucos/O lirismo dos bêbados/O lirismo difícil e pungente dos bêbados”.

Cada escritor busca sua libertação, assumindo o compromisso apenas de alongar-se em retratos simbólicos. Escrever é preciso. Quão complexo, todavia, ser original! E tudo parece acabar em repetições, em idéias que outros já dominaram, na arte quase impossível de inventar. A narrativa exige pessoalidade e um grande manancial de antevisões. Por isso, o escrever mexe com a alma, exaurindo-a até o limite do suportável. Só aí a palavra ganha a verdadeira transignificação. Lembro de Adélia Prado, quando comunica sua inquietação ao olhar para uma pedra e vê-la uma pedra — então, afirma não se encontrar na hora de escrever. É exatamente a subjetivação do olhar que estimula a inspiração. Uma pedra pode ser uma pedra, mas pode não ser. Melhor concebê-la uma metapedra e dela extrair o que a fantasia será capaz de inferir.

Um texto habilmente elaborado sugere, jamais impõe conclusões. Cabe à imaginação de quem lê a construção e a desconstrução do lido. Isto me recorda a acurada escuta das novelas de rádio na fase de criança, lá pelos idos de 1955. A sonoplastia levava a mundos surrealistas. As emoções se desdobravam além do plausível; tudo se desenrolava em contextos ocultos, nunca visualizados, mas infinitamente imagináveis. A literatura se aproxima desse cenário, o seu domínio é o do implícito: deve conter a sonoplastia do não visto. É exatamente o jogo de palavras numa afinada partitura que possibilita os devaneios da significação, devaneios particularizados em cada autor e em cada leitor. Uns veem de uma forma; outros, de outra — a narrativa, portanto, se multiplica em captações individuais, metaforicamente abstraídas.

Se a sonoplastia transmite sons tonitruantes ou melodiosos, a cenografia das palavras ondula entre o que deve ser dito e o que há de se omitir. A luta do escritor consiste na escolha. Quantas vezes levamos dias e dias para encontrar — muitas vezes sem sucesso — a forma adequada à frase inacabada! O escritor torturado nunca se satisfaz, um permanente angustiado, a perseguir o arremate que nunca chega. Ainda bem. A linguagem não se conclui, escapa de soluções simplistas, perdura ao longo do tempo numa caminhada eterna e eternizante. O pensamento, se possui estilo e beleza, não tem época. “Os Diálogos” de Platão são belos e consagrados na sua leveza artística. Nada os maculou nem os maculará, pois o presente, seja ele qual for, consolida-os como expressão estética.

Escrever reclama sofrimento, e muito. O prazer experimenta-se depois do texto estruturado. E, assim mesmo, ancorado em dúvidas, incertezas e inseguranças. Há uma aliança indissociável entre silêncios e frases em ruptura. Silêncios que selam mistérios e pausas da literatura. E qual a palavra do silêncio?

Texto de Fátima Quintas (Academia Pernambucana de Letras/ Academia Recifense de Letras.)
E-mail:fquintas84@terra.com.br

A VOZ DO MAR

(a Dirceu Ravelo e Marco Maciel)

Escuto a voz do mar. Ouço o rosnado
das ondas ao fazer tantos saudares
às vagas que provêm dos outros mares,
num linguajar de sal, codificado.

Os ventos trazem brumas seculares
veiculando um vendaval cansado.
Do Pólo Sul, o sopro congelado
transfere ao mar rumores regulares.

As correntes marinhas traçam rotas
sob as lépidas asas das gaivotas
no roteiro diário das jangadas.

Com fala monocórdia o mar não cala,
ouvindo o seu rosnar, lhe entendo a fala,
no silêncio abissal das madrugadas.

Poema de Carlos Severiano Cavalcanti